À sombra da Amendoeira

Clarissa Accioly

Clarissa Accioly

“Eu quis dizer que estava bem. 

Achei as palavras, abri os lábios e senti a urna em meu peito. 

Eu ainda estava segurando as cinzas do meu filho. 

Perdi as palavras. 

Assenti com a cabeça.

A psiquiatra colocou a mão em meu ombro. 

“Você pode trazê-lo com você.” 

Eu quis sorrir.

No zoológico de Valencia, na Espanha, uma chimpanzé chamada Natalia perdeu seu filho duas semanas depois do parto. 

O bebê morreu em seus braços e ela não o soltou. 

Por três meses, carregou o macaquinho morto como se ele estivesse vivo. 

O corpo foi se deteriorando, apodrecendo, até se tornar apenas um esqueleto. 

A equipe do zoológico precisou explicar ao público por que Natália andava pelos cantos abraçada a um cadáver. 

Três meses, pensei.

Patrícia olhou para o relógio. 

“Vamos começar.” 

Ela apontou para o banheiro: “Tomar banho, escovar dentes, vestir uma roupa limpa”. 

Concordei e ela continuou: “Te vejo na cantina em meia hora”. 

Patrícia apontou para o mapa afixado no quadro, ao lado do cardápio, e se dirigiu à porta. 

Quando ela saiu, olhei de volta para a janela, mas, desta vez, só vi as grades.”

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