Fechando este sistema interpretativo-no qual se alveja uma tentativa de explicitação dos fundamentos de uma nova estética de abdicação e devaneio -, poderíamos afirmar que no livro do Desassossego se antevê um inquietante conflito interior que, num momento pós-experiência limite, se dissolve num profundo sentimento de tédio, o qual, por sua vez, dá à luz não um inerte niilismo(por defeito) mas uma activo niilismo (por excesso) - nele eclodindo toda a "explosão" heteronímica, todo esse, no dizer de Eduardo Lourenço, fundamental estilhaçar de uma "jarra superlativamente partida", podendo-se perspectivar semelhante movimento justamente como reflexo de um desejo transmutado, o desejo de assumir o papel central presente na (anti)mundividência inerente à leitura aqui esboçada: "ser" princípio de representação; "ser" o próprio acto de representar...
Trauseuntes eternos por nós mesmos, não há
paisagem senão o que somos. Nada possuímos,
porque nem a nós possuímos.Nada temos porque
nada somos.que mãos estenderei para que
universo? O universo não é meu:sou eu.
Este desejo, contudo, não anula o constante reemergir do central conflito interior. E é desse constante reemergir que deriva a intuição, que também é saudade, que também é pressentimento, de uma não-metáfora; e, perante semelhante aparição recorrente, a condição daquele no qual se desenvolve tal conflito reduz-se, assim a uma condição de si mesmo apartada - qual "Príncipe do Grande Exílio"...
...E se as nossas saudades se unissem
Num sussurro de sibilino segredo?
E se as nossas vaidades se vestissem
De um urro de divino degredo?...
