Um louva-a-deus num campo de girassóis
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Um louva-a-deus num campo de girassóis

Sinopse

Quando, do alpendre, olhou a montanha que todos os dias se erguia à sua frente e todos os dias se renovava, percebeu como o grito quebrara o silêncio. Um grito que fez levantar os pássaros em revoada e bateu nas fragas com a estridência de um chicote silvando no ar. Depois, num ricochete silencioso, recolheu-se ao oco fundo onde cresceu e ecoou na solidão do espaço, ou do tempo (...). A lembrança dos encontros com aquele homem provocava-lhe uma perturbação forte, algo de irracional. Uma sensação física de prazer misturada com dor suave que se centravam no baixo-ventre e a iam tomando num arrepio por todo o corpo. (...)

Senhores enchapelados e coscuvilheiros tinham por costume juntarem-se na Farmácia ou na Barbearia para comentar as notícias que analisavam, ora com “ácidos e sais”, ora a “pente fino”, conforme o ponto de encontro. Ninguém escapava à maledicência. A notícia da menina rica e prendada era um prato delicioso para satisfazer as línguas ávidas de bom picante. Zurziam principalmente nas mulheres.

Fica à espreita com o coração a bater desenfreado. Primeiro, vê aparecer os inconfundíveis tricórnios da guarda civil. Dois guardas. Dois caçadores, portanto. (...) Um deles tira o tricórnio e limpa a testa com um lenço. (...) Começa a farejar o ar, como um animal, en- quanto o colega olha para ele e empunha a espingarda. Deram com ele. (...) Francisco tem a sensação de abandono total. (...) Nu e só na sua essência, reduzido à condição ancestral de animal acossado na iminência de ser caçado. (...)

Quando se apercebeu que as suas únicas armas, como os dentes e as unhas, ao tocarem-lhe na carne, o faziam exultar de gozo, quase partiu os dentes contra uma parede e espetou com tal fúria as unhas nas palmas das mãos que elas se partiram e deixaram traços de sangue, marcando mais umas linhas, nas linhas da sua vida. Muitas vezes desmaiava. Quando acordava, via que ele (Inspector da PIDE, Fernando Cavaco) a tinha violado, mesmo inconsciente. (...) Depois reanimava-a. Ele fazia questão de que ela se apercebesse que tinha sido abusada. Comprazia-se com as suas reacções de repulsa.

Chegou o Verão e, na quinta, na parte baixa, apareceu um campo de girassóis. Magnífico e doirado. (...) Parecia que as flores dialogavam entre si, abanando as cabeças coroadas, gesticulando e repetindo com mil vozes o eco do vento, compondo uma melodia indecifrável, irreal, mas audível e concreta nas suas cabeças. (...) Um louva-a-deus pairou no ar e pou- sou com destemor no braço nu de Isis, puxando-a para a realidade. (...) Naquele momento mágico, aquele bichinho verde e exótico quis ser um dos protagonistas da sua história.

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