Os Mal-Amados - Segundo Volume

Hélder Diniz

Hélder Diniz

Como na altura suspeitara, nada do que na agenda mais tarde leu constituiu para si qualquer novidade.

Era a mesma agendazinha que alguém inserira um dia num dos bolsos das suas calças rotas, não longe do local onde pela última vez vira o miúdo de pés nus, cabelo prateado e olhos verdes brilhando na escuridão da noite que caía - o mesmo que dele cuidara desde o início e a quem ele decidira no fim chamar o seu belo e meigo "Anjo Bu".

Ao abrir o livrito negro prestes a desintegrar-se agora nas suas mãos doridas, uma tristeza antiga invadiu-o de novo de mansinho sem que ele nada pudesse fazer para a evitar - a mesma tristeza que aos poucos o invadira no passado à medida que os amigos iam partindo, a mesma tristeza que decerto o perseguiria para sempre, para onde quer que fosse ou onde quer que se encontrasse, com ou sem sol a pôr-se no horizonte dourado de Berlim - ou de qualquer outro sítio deste mundo, Norte, Sul, Oeste ou Leste, já que o local em si deixara agora de ter qualquer importância.

Algo porém desta vez sentiu que nunca sentira dantes, algo de que jamais se esqueceria: não morreria só.

Manifesto ou invisível, o seu Anjo estaria ao pé de si como sempre estivera antes, fiel e incondicionalmente - sempre, até ao fim.

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