Portugal sob a Égide da Ditadura: O Rosto Metamorfoseado das Palavras

Paula Morais

Paula Morais

O Estado Novo (re)construiu, teceu e difundiu uma imagem da portugalidade que deveria ser assumida por todos os portugueses. Para tal, usou o sistema de ensino, as comemorações de efemérides, os meios de comunicação social e a censura. Desse modo, as vozes discordantes/dissonantes eram remetidas ao silêncio e à não existência pública. Vai ser essa metanarrativa do regime que os autores portugueses da época vão tentar implodir, revelando as suas fraquezas e limitações bem como equacionando o conceito de identidade nacional dada a consciência crescente de que ela não é unidimensional, mas pluridimensional assim como feita de uma heteroglossia de traços que nem sempre são exclusivos dos portugueses.

O discurso salazarista sobre Portugal vai impulsionar a criação de um conjunto de discursos que procuram distorcer, desmontar e desvirtuar esse protótipo genialmente montado pelo regime e sonhar um outro Portugal. São esses outros rostos que se procurou descobrir a partir da análise de poemas de autores da época (Sidónio Muralha, Sophia de Mello Breyner, Manuel Alegre, Ruy Belo, Natália Correia, Jorge de Sena, Miguel Torga, Egito Gonçalves, Alexandre O’Neill, Mário Cesariny, Saramago). Num país silenciado pelo regime, impossibilitado de exprimir livremente a sua opinião, o uso do poder simbólico das palavras foi o único recurso disponível para não compactuar com o falso rosto de Portugal que o regime procurava impor dentro e fora do país.

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