RÚMINO-RESSONÂNCIA

Raul Colaço

Raul Colaço

Quem tem fome, tem pressa. Come tudo que vê pela frente. Sendo pedra, sendo gente. A fome está por vir sempre, comendo até quando cheia, a vômito-babar, mesmo que exploda, que escorra, que morda, que morra. A fome come as letras, as estrelas, come a pressa, a presa, a si mesma. A fome come a história, as histórias, come as trajetórias de um homem que perde os dias num ônibus que nunca chega ao seu destino final, o passageiro que deseja descer do coletivo e é constantemente impedido, o flautista do metrô (artista da fome?) que tem sua arte ignorada pelos passantes, o uroboro do sonho que come um sonho que come outro sonho, o construtor faminto que tudo destrói com sua fome, a tecnologia que come o ser do homem. A fome que tudo engole: muros, fluídos, furos. Come até a matemática, as flores e os pássaros, a cultura bíblico-erudita ou das massas. A forma da fome é pura e eternamente retorna: para o crânio, para os hábitos, para o seu hálito urbano; e retorna: para a vida, para os muitos, para o único; retorna: para o nome, para o óbvio, para a fome. A fome devora a hora. Aqui, agora.

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