Certo dia, Samuel de Jesus, o aventureiro, resolveu regressar. A viagem parecia não ter fim, mas a saudade, a vontade e a coragem venceram. Desejava respirar o ar fresco e franco do seu bairro e brincar com os amigos na terra vermelha.
Nem eles sabem que viajaram no seu coração ao embalo de ondas altaneiras e valejos de mar sempre prontos a assinalar o perigo!
Assim, enfeitiçado pelo encantamento e o mistério da sua terra, e acarinhado pela manhã radiosa que madrugou, avistou uma cidade fantasiada de tantas cores!...
Ao longo da costa estendia-se uma faixa de areia branca avivada de banhistas, restaurantes, e muito arborizada.
Era a Ilha do Cabo da sua Luanda. O coração bateu tão forte que quase desfalecia.
A saudade entrou vitoriosa no porto de regresso, e transformou-se em emoção.
Era como se mundos se debatessem entre a guerra e a paz, a pobreza e a riqueza, a vozearia e os silêncios, a lua e a alvorada, a sombra e o sol, a noite e o dia, sem haver meio-termo ou alternativa, porque o desejo contido se manifestava em confuso mas profundo deslumbre.
Eis senão quando o menino avistou a majestosa mulembeira e os amigos encantados a ouvirem atentamente uma história que só podia ser de Vavó.
Era mesmo a voz dela que os meninos ouviam, entoada pelo anjo vestido de azul, a contar a história da viagem.
Uma vez mais se cumpriu a promessa de Vavó Linda!
António Cordeiro da Cunha
