A Primavera Há-de Chegar

Luís Ramalheira

Luís Ramalheira

Estávamos tão sedentos de liberdade que nos viciámos dela, como se não existisse mais nada. E a liberdade não era só o que pensávamos: o fim da censura, o direito à greve, melhores salários, habitação condigna, bifes do lombo, minissaias, sapatos altos e calças de bombazine. A liberdade não era sequer os cabelos compridos, o aligeirar da linguagem ou o fim da obrigatoriedade do traje de gala no Teatro S. Carlos. A liberdade era também o futuro.

Mas esses homens saídos de abril – e quem os pode criticar, enclausurados nos seus casulos, sem luz nem esperança – desejaram tudo depressa de mais e algumas décadas depois, despojados de novo de quase tudo, subsistiram teimosamente agarrados ao anseio de liberdade, pouco mais lhes restando.

 

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