Coragem, Altruísmo e Fé

Rosalina Coelho Vaqueiro

Rosalina Coelho Vaqueiro

Aos dois anos e meio fiquei sem mãe. 

Fui ao funeral ao colo de vizinhos e aquele povo ia passando a minha pessoa de mão em mão.

Eu pensava que não devia chorar porque elas podiam arrepender-se de me tomar para criar. 

Desde muito cedo tive a percepção de que nada naquela casa pertencia-me. 

Elas davam-me tudo, mas eu sabia que nada era meu.

A partir de 1945 houve seca em Cabo Verde e eu vi pessoas morrerem de fome.

O padre perguntou-me se cometia pecados das tentações da carne e eu não sabia o que isso era.

Subestimávamos o sono e a comida. 

O sofrimento da pessoa a ser evacuada não nos deixava pensar na fome. 

Dávamos o nosso tempo para tentar salvar vidas. 

Naqueles dias difíceis tínhamos que aguentar firme, encerrar o medo de morrer e não pensar.

Guiné 1973. 

Estava toda a agente a morrer e os aviões a cair. 

Todos os dias perdíamos algum colega ou piloto. 

As baratas davam-me a certeza de estar viva. 

Ao vê-las no meu quarto eu me beliscava falando baixinho: “Agora já sei que estou viva”.

No avião, a ser evacuado para Lisboa o soldado, paralítico e sem “sexo” não queria ver a namorada e chorou agarrado ao meu pescoço. 

As minhas lágrimas juntaram-se às dele.

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