"Prendes-me os olhos, os ouvidos; engoles os meus lábios. Fazes de mim qualquer coisa... Tão concreta e definida como outra coisa qualquer. Agarras-me os dedos nos teus suados e arrastas-me em passos pesados pelo caminho da tua luxúria viva que me devora; que me engole. Rasgas-me a pele, untas-me do teu fel e vicias-te em mim. Eu vejo-te passar e acho que estás demasiado perto; quero a tua carne e o teu peito, quero-te para mim. Mas mais logo, mais logo quero que saias, que te esvaias, que te escondas, te confundas; não quero que estejas aqui.
Eu não sou o tipo de homem que te há-de espancar por ciúmes da tua sombra, embora tu quisesses; eu não sou o tipo de homem que sonha à noite com o sabor da tua saliva. Eu tenho um castelo onde tu não entras, ainda que o teu perfume me esmague as melhores intenções e tudo em mim se altere, e se levante, imponente, raiado e quente, quando tu me tentas.
Mas eu sou um castelo, trancado, ferrado, onde tu não entras.
Eu sou aquele ao teu lado, aquele que se mantém dentro do teu quadro, que te olha de revés, só para que o vejas, sem te ver. Podes tocar-me, trincar-me, levar-me no bolso pelas tuas ruas fora; eu não vivo na tua hora, eu não quero o teu esboço; não vais encontrar-te a ti dentro de mim".
